Lascas de Bacalhau com Puré de Couve Flor e Chuchu


Ainda me lembro dos do tempo em que a vida decorria sem grandes preocupações. Em que a maior decisão do dia era se levava a camisola azul ou o casaco verde, ou se tinha feito os trabalhos de casa, ou se a mãe ia fazer outra vez peixe cozido para o almoço. Lembro-me do tempo em que a única coisa que tinha de fazer era ir à escola, os trabalhos de casa, estudar para os testes e ter as melhores notas possíveis. Não tinha mais exigências, grandes preocupações, ou complicações. A vida decorria entre a escola e os amigos, e planos para o fim de semana e férias. Havia coisas que eu julgava que iam decidir a minha vida, como “amores” não correspondidos, tricas com as amigas, gostar mais ou menos de um professor, borboletas na barriga por ir ao quadro ou por ser dia de teste.
Mas depois vamos crescendo. As preocupações e as responsabilidades vão sendo cada vez maiores. Da escola, para um curso superior, de estágios para o mercado de trabalho. Depois damos por nós em relacionamentos sérios e a querer ser independentes. A ter uma casa. A sermos responsáveis pela nossa vida, pelas nossas contas, pelo nosso espaço, pelos nossos sentimentos e pelos nossas decisões, afetos, relações. E quando, e se, vêm os filhos, então, para além de tantas coisas para gerir, controlar e movimentar, de repente ainda somos responsáveis por pequenas pessoas totalmente dependente de nós.
Ninguém nos prepara para nada disto. Nada nos prepara para nada disto. Aprendemos a dar cabeçadas na parede. Aprendemos por instinto, por pressão, por tentativa e erro. A lidar com o patrão. A ser pais. A fazer o nosso caminho.
Aprendemos pelo exemplo. Pelas experiências que a vida nos vai proporcionando. Pelas pessoas que vamos conhecendo e com as quais vamos trocando ideias. E, como tudo vamos ficando melhores em algumas coisas no que noutras. E aprendemos a ser capazes de saber viver gerindo tudo, algumas vezes com equilíbrio de malabarista....
Aprendemos a fazer jogo de cintura. A calar quando nos apetece partir a louça toda. A engolir sapos. A ignorar atitudes  que nos parecem menos justas ou francas. Aprendemos que viver em sociedade, ou no seio da família e dos amigos, ou até no local de trabalho nos obriga também a aprender a gerir sentimentos. A perceber que nem tudo pode ser dito. Que por vezes as nossas melhores intenções não são assim tão bem compreendidas. Que é preciso calar e pensar antes de abrir a boca. Que não somos donos da razão. Que temos mesmo de ouvir mais e que nunca, mas nunca devemos argumentar de cabeça quente, e quando ainda não pensamos calmamente sobre o que queremos fazer.
Olho para os meus miúdos e lembro-me da idade em que não há filtros. Em que a felicidade está em fazer apenas e só o que nos apetece. Em que podemos fazer uma birra só porque as coisas não são como nós queremos. Em que somos sempre sinceros e honestos em todas as nossas palavras, porque ainda ninguém nos ensinou que em sociedade há coisas que se calam para evitar conflitos, para evitar momentos desagradáveis, para não magoar alguém ou apenas porque não somos os donos da razão e não mandamos no mundo.
E depois lembro-me dos adultos sem filtro. Daqueles que por detrás da sinceridade e da honestidade dizem tudo o que lhes apetece da forma que lhes apetece, sem olharem a como podem estar a magoar alguém. Lembro-me que apesar de adultos e de viver em sociedade, há quem não se importe com nada disso. Há quem ache que é dono do mundo, da razão e faça tudo para levar a sua avante, porque acha que essa é a maneira de fazer. Porque há quem viva em sociedade a achar que está acima de todos. 
Talvez o natal seja uma época para refletir acerca das nossas fraquezas. Dos nossos receios. Das nossas falhas. Para sermos capazes de pensar antes de falar, de evitar conflitos, de engolir sapos com um sorriso nos lábios. De perceber que só vale a pena valorizar a opinião de quem realmente importa. De desvalorizar o que não é importante. Dar prioridade ao que é mesmo prioritário. Ignorar o que merece ser ignorado. 
E de saber viver. 

Próximo Workshops:
Tema: Mesas de Festa

Porto - 15 de Dezembro - 15h Workshops Pop -Up - ÚLTIMAS VAGAS
Inscrições diretas aqui: 

Ingredientes para 2 pessoas (+ 2 crianças):

2 lombos de bacalhau
1 couve flor pequena
1 chuchu
sal e pimenta q.b.
noz moscada
2 colheres de sopa de leite de coco de lata (parte sólida)
150ml de leite
2 dentes de alho
1 folha de louro
cebolinho q.b.

Preparação:

Coloque o bacalhau num pirex que possa ir ao forno e cubra com o azeite. Tempere com um pouco de pimenta, os dentes de alho inteiros e a folha de louro. Leve ao forno previamente aquecido a 180ºC durante cerca de 25 minutos.
Entretanto separe a couve flor em raminhos e descasque o chuchu e corte-o em pedaços. Coza a couve flor e o chuchu ao vapor até que fiquem macios. Coloque depois no robot de cozinha, tempere com um pouco de sal, pimenta e noz moscada e o leite de coco e triture até obter um puré homogéneo.
Assim que o bacalhau estiver cozinhado, separe-o em lascas e tempere com o azeite de assar o bacalhau.
Divida depois o puré de couve flor e chuchu pelos pratos. Por cima disponha as lascas de bacalhau e termine com um pouco de azeite de assar o bacalhau e um pouco de cebolinho picado.
Sirva de imediato.


Bom Apetite!

5 comentários :

  1. Olá Joana
    Texto lindo, ternurento e muito real....Um óptimo Natal para si e toda a Família e que 2019 seja repleto de novos sucessos. Beijo

    ResponderEliminar
  2. Joana, que bela receita, mas que introdução fenomenal! É mesmo isso: as pessoas q se dizem francas e sinceras nem sempre escolhem a melhor forma de dar a sua opinião ou fazer valer as suas ideias... pq atropelam quem lhes aparece à frente c a postura de 'eu quero, posso e mando, e eu é q sei e tu estás errada e eu é q estou certa'! Obrigada, pq verbalizaste o q venho sentindo e vendo há algum tempo :) Bjinho grande e boas festas :)

    ResponderEliminar
  3. Anónimo12:33

    Uma belo texto e uma bela reflexão!
    A vida não vem com manual de instruções para todas as situações e acontecimentos. É uma montanha russa de acontecimentos bons e maus, o "para e arranca", avanços e retrocessos, gerir sentimentos bons e maus, lidar com as contrariedades, aprender a viver em sociedade e a lidar com as respetivas diferenças.
    O problema é que hoje em dia, com tudo à "velocidade da luz", as pessoas não param para pensar/refletir antes de verbalizarem as coisas ou agir, é tudo de "chofre" sem olhar às consequências das palavras ou atos, obrigando muitas vezes as pessoas a "engolir sapos" desnecessários pela injustiça da situação. Haja "kompensan" (ou outros digestivos) para todos os "sapos indigestos" deste mundo! E que o espirito de Natal , em termos de reflexão, se mantenha durante o ano inteiro!
    Relativamente a esta receita, uma ideia simples e deliciosa, com um puré diferente para variar do da batata.

    Um grande beijinho,
    Sara Oliveira

    ResponderEliminar
  4. Um texto lindo e que reflecte bem muitas famílias,...
    Adorei esta sugestão de lascas de bacalhau!
    Beijinhos,
    Espero por ti em:
    strawberrycandymoreira.blogspot.pt
    http://www.facebook.com/omeurefugioculinario
    https://www.instagram.com/marysolianimoreira/

    ResponderEliminar

Imprimir